Em outubro de 2026, João Gomes voltou a ser cobrado por não declarar publicamente seu voto. A discussão recuperou um episódio de quatro anos antes: depois de participar de uma manifestação contra Jair Bolsonaro no Rock in Rio de 2022, o cantor enfrentou críticas e pediu desculpas. Agora, seu silêncio também recebe interpretações e cobranças. Jornal Correio, 2026.
Naquele primeiro episódio, a reação ultrapassou os comentários nas redes. O Sindicato Rural de Imperatriz, no Maranhão, recusou a realização de uma apresentação no espaço que administrava, relacionando a decisão à manifestação contra Bolsonaro. O show ganhou outro local. Uma fala no palco havia alcançado as condições de trabalho do artista. UOL, 2022.
Esse caso ajuda a perceber o que está em jogo quando artistas, influenciadores e empresas entram na discussão política. Uma manifestação pode alterar relações com seguidores, contratantes e parceiros. Seus efeitos podem continuar aparecendo muito depois da publicação original.
É por isso que considero o posicionamento político uma questão relevante para o planejamento estratégico de marca. Quem trabalha com a própria imagem precisa compreender como uma declaração se incorpora à sua trajetória. Quem contrata essa pessoa precisa considerar o que será associado à parceria. E quem acompanha pode usar essas informações para decidir em quem confia, de quem compra e quais vínculos deseja manter.
Até o silêncio passa a ser interpretado
A cobrança dirigida a João Gomes mostra que uma audiência pode esperar algo além da música. Parte do público atribui à visibilidade uma responsabilidade de manifestação. Outra parte defende o direito de preservar o voto ou rejeita a presença da política naquele espaço. O artista precisa lidar com expectativas que não são necessariamente compatíveis.
Uma declaração anterior também pode estabelecer uma referência para cobranças futuras. Veronica Thomas e Kendra Fowler investigaram o ativismo de influenciadores em três estudos e encontraram um efeito importante: manifestar apoio a uma causa podia melhorar a avaliação do criador, mas também elevava a expectativa de continuidade. Quando essa expectativa era frustrada, diminuíam a autenticidade percebida e a avaliação do influenciador. Thomas e Fowler, 2023.
Esses estudos tratam de ativismo em causas sociais e políticas, sem explicar individualmente o caso de João Gomes. Ainda assim, oferecem uma chave de leitura: uma manifestação pode passar a funcionar como compromisso aos olhos de quem acompanha.
Isso merece atenção no planejamento. Uma publicação pode parecer pontual para quem a produz e se tornar uma referência duradoura para quem a recebe. A audiência pode recuperá-la quando surgir uma nova eleição, uma parceria comercial ou uma declaração aparentemente contraditória.
Nas empresas, a ausência de manifestação também pode produzir consequências. Marco Qin e colegas estudaram marcas de moda durante o Blackout Tuesday, mobilização associada ao movimento Black Lives Matter. Na comparação entre plataformas, empresas que não participaram apresentaram crescimento de seguidores 33% menor e redução de 12% nas curtidas no mês seguinte no Instagram em relação ao Twitter. O resultado pertence àquele contexto, mas demonstra que o silêncio também pode entrar na avaliação do público. Qin et al., 2025.
A decisão de evitar um assunto, portanto, precisa considerar as expectativas já construídas. Isso não autoriza ninguém a deduzir o voto de outra pessoa pelo silêncio, nem transforma cobrança em justificativa para intimidação. Significa reconhecer que a interpretação pública acontece mesmo quando a marca ou o criador preferem não participar da conversa.
Quando o posicionamento chega ao consumo
Na eleição presidencial de 2018, em que Bolsonaro foi eleito, circularam listas de empresas a serem boicotadas por causa do apoio de seus proprietários ao candidato. A Havan estava entre os casos mais conhecidos, pela atuação pública de Luciano Hang. A cobertura da época registrava as campanhas de boicote e também a declaração do empresário de que as vendas não haviam diminuído. Temos evidência da mobilização, sem demonstração de seu prejuízo financeiro. Exame, 2018.
O Habib’s aparece em outro momento dessa história. Em 2016, o grupo apoiou manifestações contra o governo Dilma Rousseff por meio de campanhas, decoração de lojas e distribuição de materiais. A empresa afirmava não apoiar siglas ou coligações, mas sua comunicação participava de um acontecimento político reconhecível. Época, 2016.
Esses episódios mostram como uma empresa pode adquirir significado político tanto pela comunicação da marca quanto pela atuação pública de seus dirigentes. O consumidor passa a encontrar outras informações junto daquilo que já sabia sobre preço, produto ou atendimento.
Consumo político, em poucas palavras: uso das escolhas de consumo para expressar valores ou tentar interferir em questões coletivas. Pode envolver deixar de comprar de uma empresa ou preferir outra por suas práticas e posições.
Sourjo Mukherjee e Niek Althuizen investigaram as respostas ao ativismo de marcas e encontraram uma assimetria: consumidores contrários ao posicionamento pioravam sua avaliação, enquanto a concordância nem sempre produzia um benefício equivalente. Nos estudos, perder apoio de um grupo não era automaticamente compensado pela reação favorável de outro. Mukherjee e Althuizen, 2020.
Esse resultado confronta uma expectativa comum de que uma manifestação controversa necessariamente fortalecerá a marca entre aqueles que permanecerem. Isso pode acontecer, mas precisa ser investigado. Elogios, críticas, intenção de boicote e comportamento de compra oferecem informações diferentes.
Para quem planeja, a pergunta precisa alcançar as consequências que a organização está disposta a assumir. Uma empresa pode considerar determinado compromisso importante o suficiente para sustentá-lo mesmo diante de perdas. Essa decisão precisa ser compreendida por quem responde pela marca e por quem executa sua comunicação.
A política também pode encerrar uma parceria
Em setembro de 2018, Pabllo Vittar anunciou o encerramento de sua parceria com a marca de calçados Victor Vicenzza depois do apoio público do proprietário a Bolsonaro. O posicionamento entrou diretamente na relação comercial entre artista e empresa. UOL, 2018.
O episódio torna concreta uma dimensão que frequentemente fica escondida na discussão sobre seguidores: uma associação política pode tornar uma parceria incompatível com a posição de quem a integra.
Quando uma marca contrata uma personalidade, a colaboração aproxima duas histórias públicas. As experiências, os valores e as posições atribuídos àquela pessoa participam da interpretação do anúncio. O mesmo acontece no sentido inverso: representar uma empresa também passa a fazer parte da imagem do artista ou influenciador.
A pesquisa de Mario D’Arco e colegas ajuda a compreender essa relação. Os autores investigaram colaborações entre influenciadores, marcas e organizações e encontraram resultados que relacionam a compatibilidade entre os parceiros e o alinhamento com a causa à autenticidade percebida e às respostas do público. D’Arco et al., 2025.
Essa pesquisa não mede quantos contratos são recusados por posições eleitorais. Ela sustenta, porém, a importância de examinar a compatibilidade que uma parceria comunica. Para o planejamento, minha leitura é que o histórico político precisa integrar essa análise quando for relevante para a relação proposta.
Imagine um criador que apoie publicamente um candidato e, mais tarde, seja considerado para uma campanha de uma empresa cujo público rejeita fortemente esse posicionamento. A equipe poderá avaliar se a associação prejudica a proposta comercial. Também poderá encontrar identificação entre aquela trajetória e os valores da marca. São possibilidades que dependem da parceria, e precisam ser consideradas antes da contratação.
Uma eleição pode durar alguns meses na agenda de produção. A associação construída durante ela pode permanecer no repertório usado para avaliar o criador.
Anitta e a entrada do repertório pop na campanha
A participação de artistas em campanhas eleitorais tem uma história anterior às redes sociais. O jingle “Lula lá”, utilizado em 1989 e retomado em 2022, reuniu personalidades como Chico Buarque e Marieta Severo nas duas épocas. A presença artística já participava da apresentação pública de uma candidatura. Poder360, 2022.
Com as plataformas, essa participação ganhou outras possibilidades. Uma celebridade pode publicar em seus próprios canais, conversar com seguidores e oferecer conhecimentos sobre formatos e circulação.
Anitta explicitou essa dimensão em 2022. Ao declarar apoio a Lula, colocou-se à disposição para ajudar na comunicação em plataformas como TikTok, Twitter e Instagram. Depois, afirmou ter conversado com o candidato sobre estratégia de marketing. Seu envolvimento incluía uma oferta de conhecimento sobre comunicação digital. Folha de S.Paulo, 2022.
Esse episódio me interessa porque mostra uma contribuição que ultrapassa a aparição em uma peça publicitária. A experiência de construir uma carreira nas plataformas pode participar da maneira como uma candidatura se apresenta. A cultura pop oferece repertórios, linguagens e relações com o público que passam a integrar a disputa política.
Ao mesmo tempo, essa disputa pode alcançar a avaliação do trabalho artístico.
Uma pesquisa brasileira publicada na revista Lumina analisou a controvérsia sobre o sucesso de “Envolver” no Spotify. Alékis Moreira, Beatriz Polivanov, Simone Pereira de Sá e Pauline Saretto reuniram 8.582 publicações e examinaram uma amostra de 758. Encontraram 74% de publicações negativas e identificaram que 51,3% dos perfis que acusavam manipulação do algoritmo eram pró-Bolsonaro. Os autores discutem a instrumentalização política dessa controvérsia. Moreira et al., 2025.
O resultado não transforma toda crítica musical em ataque partidário. Mostra que a polarização política estava presente naquela discussão sobre música, fãs e plataformas. O posicionamento de uma artista pode entrar na interpretação de assuntos que, aparentemente, pertencem a outra área de sua carreira.
Para quem trabalha com reputação, essa passagem importa. A manifestação política pode continuar sendo mobilizada quando a publicação eleitoral já ficou para trás.
O que precisa entrar no planejamento estratégico
Os casos brasileiros mostram que os riscos do posicionamento público podem alcançar relações de consumo, apresentações e parcerias. As pesquisas ajudam a compreender mecanismos envolvidos nessas respostas, como expectativas de continuidade e percepção de compatibilidade.
Por isso, considero insuficiente avaliar uma manifestação apenas pelo desempenho esperado da publicação. O planejamento precisa alcançar a trajetória que ela ajuda a construir.
Antes de assumir um compromisso público, uma marca ou um criador precisa compreender sua relação com o assunto. Que convicção sustenta aquela participação? Como ela se conecta ao histórico já conhecido? Existe disposição para explicar a escolha e responder a questionamentos depois que a campanha terminar?
Também é necessário considerar as relações profissionais. Quais parcerias existentes podem entrar em tensão? Que associações futuras parecem coerentes com essa posição? Há compromissos que a pessoa ou a empresa não aceitará, mesmo que sejam comercialmente atraentes?
Essas perguntas ajudam a dar concretude à decisão. Convicção e consequência comercial coexistem. O objetivo do planejamento é compreender o compromisso e suas implicações, sem prometer controle sobre todas as reações.
Para o público, o mesmo raciocínio permite interpretar melhor o que encontra nas redes. Uma recomendação política pode expressar uma convicção pessoal, integrar uma campanha organizada ou envolver uma relação profissional. Conhecer esse contexto ajuda a avaliar a mensagem. Gostar de um artista não dispensa o exame do candidato que ele recomenda, assim como discordar de sua escolha não demonstra, por si, incompetência em seu trabalho.
Minha posição é que marcas e influenciadores precisam tratar manifestações políticas como decisões com continuidade. Elas podem fortalecer vínculos, abrir oportunidades, produzir rejeição e estabelecer expectativas que reaparecerão no futuro.
João Gomes, Pabllo Vittar, Anitta e as empresas citadas mostram formas diferentes desse processo. A política alcança a imagem pública e, em determinados casos, as condições de trabalho e de associação comercial. Quem planeja conteúdo precisa considerar essa duração. A publicação termina; o compromisso que as pessoas enxergaram nela pode continuar sendo cobrado.
Referências científicas
- Thomas, V. L.; Fowler, K. (2023). Examining the outcomes of influencer activism. Journal of Business Research, 154, 113336.
- Qin, M. S.; Luo, X.; Schifeling, T.; Wang, Y. (2025). When corporate silence is costly: Negative consumer responses to corporate silence on social issues. Strategic Management Journal, 46(4), 994–1026.
- Mukherjee, S.; Althuizen, N. (2020). Brand activism: Does courting controversy help or hurt a brand?. International Journal of Research in Marketing, 37(4), 772–788.
- D’Arco, M.; Branca, G.; Marino, V.; Resciniti, R. (2025). Influencer Activism: Insights for Effective Partnership With Brands and Organizations. Psychology & Marketing, 42, 741–766.
- Moreira, A. C.; Polivanov, B.; Pereira de Sá, S.; Saretto, P. (2025). Anitta, Spotify e polarização política: análise da controvérsia em torno de Envolver. Lumina, 19(1), 156–174.


